Aqui já usei quase todo o meu repertório masoquista e desfiz boa parte das minhas ideias comunistas. Esse espaço é meu, mas desejei compartilhá-lo com o mundo, se você faz parte dele...Então seja muito bem vindo(a)!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Bettahs


Criavam peixes. Não porque gostassem, mas porque era o único animal permitido pela avó e dona do lar. A alergia que o simples cheiro de todos os demais bichos causavam se tornava grave a cada crise.
Por um tempo relativamente longo se interessaram por aqueles pobres animais enclausurados de forma tão impiedosa. Iam pescar suas vítimas numa lagoa pertinho de casa fazendo uso dos melhores materiais de pesca que uma criança poderia imaginar: peneiras e escorredores de macarrão!
Foram tricongates, muitos por sinal. Guarus, piabas e quando já tinham se tornado doutores na criação começaram a comprar bettas. E foi um período estimulador, passavam boa parte do dia vigiando os bichanos. Até que um dia, um peixe, justamente o meu peixe, tentou suicídio para não ser comido por um gato. Lançando-se do aquário a quase um metro e meio do chão ficou se debatendo ao que eu rapidamente o socorri.
A culpa tinha sido da gata do meu avô cujo nome recordo-me bem: Caduquinha, que de caduca para matar nada tinha. E descrevendo isso dou risada ao lembrar do meu desespero infantil e da raiva que tive quando descobri que nada dura para sempre, nem mesmo os peixes!
Quase aos prantos minha alma estava, numa aflição danada e na hora não pensei em outra coisa...Lá fui eu com meu peixinho (uma betta leitão) na mão, ela tentando sofregamente sobreviver enquanto eu a afogava em lágrimas e súplicas. É usei toda a minha fé ali, vai ver por isso as montanhas mais tarde nunca se moveriam.
Com veemência pedi a Deus que salvasse aquele meu objeto de amor. E ela coitadinha, já sem fôlego foi posta na água logo após o término do pedido. Embora todos os adultos da casa terem insanamente gargalhado da situação, e de terem feitos críticas fundamentadas em não sei o quê, o meu peixinho não morreu naquele dia, na verdade veio a óbito meses depois após uma cria. Isso é o que dá querer milagre duas vezes!

sábado, 29 de maio de 2010

Absurdo

Com olhos mortais vejo o absurdo,

sinto,

sou.

E com estes olhos facilmente choro, com qualquer coisa que consiga me fazer transcender o óbvio, sim eu choro.

E vejo além, e vou deixando descer uma lágrima assim devagarzinho com medo de estragar a beleza que se mostra através dessas janelas tão imperfeitas.

Estes olhos que me fazem enxergar a beleza e o absurdo, sim estes olhos são meus, são do mundo, são de minha humanidade, são da vida.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Morrer

Matam-me todos os dias com palavras estúpidas, olhares indiferentes, gestos desumanos.

Morro sempre, a cada confronto com as minhas feridas.

Mato-me na tristeza por querer ser o que não posso.

Quero o super homem Nietzscheano!

Morrer, eis uma condição da minha humanidade que abomino.

Detesto a morte diária estampada e sangrenta, a morte insensível, a insolente morte que não poupa nem as crianças.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Menschlich

Hoje eu acordei tão decrépita!
Desacreditada no poder do humano que há em mim.
Esses dias o vi tão pequeno, de uma pequenez vergonhosa.
Tanto que gastei, tanto que um dia chorei.
Hoje?
Hoje nem sei mais. Nem choro mais, nem sei querer.
Desacostumei-me com a grandeza das ideias e me limito a viajar em devaneios e a sorrir para esconder gotas de humour presas aqui dentro.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Andava pela estrada serenamente, sozinha caminhava a passos lentos e pensando no que haveria de fazer com aquela vida que teria de levar por mais um tempo.

A solidão que a carregava para o isolamento teria sido mais forte não fosse as mãos daqueles que costumava chamar de amigos. Sim, os amigos mesmo distantes se tornam ainda mais presentes nos momentos de crise.

Estava em crise, mais uma das tantas crises existenciais pelas quais passou. Esta última surgiu sobretudo de sua incansável reflexão a respeito do seu próprio mundo e de todas as coisas que o cercavam. Ela não acreditava mais estar em crise, acreditava ser a própria crise. Mas sorria, não se incomodava mais, não sentia mais, nada...nem dor nem prazer, nem alegria nem tristeza, nada, ela não sentia mais nada!

Sim? E o que dizê-la nesta hora tão amarga?

Não poderiam, as palavras não mais possuíam poder para. Transformação? Ela desconhecia o significado desta palavra. Realidade? Só uma, a de que ela sofria. De um sofrimento inexplicável e imensurável. Sofria por esse estranhamento, sofria por não suportar ver tantos peixes reunidos num mar raso e poluído. Sofria porque não era igual e sabia ser impossível tornar-se.

Sofria, ela sofria.