Aqui já usei quase todo o meu repertório masoquista e desfiz boa parte das minhas ideias comunistas. Esse espaço é meu, mas desejei compartilhá-lo com o mundo, se você faz parte dele...Então seja muito bem vindo(a)!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um grato

Estava terminantemente sentado a observar os transeuntes que iam e vinham num ritmo tranquilo, mas incessante.

Foi rápido o momento que passou de observador a observado, e aproveitando-se da situação ousou receber carinho, mas numa tentativa frustrada esquivou-se, afinal: era um gato não um homem.

Como tal percebia seu lugar na ordem das coisas e permanecia com o olhar de abandono, de bicho que não se importava mais.

Indiferente a todos, dispersava sua atenção vez por outra nalgum passo mais apressado que podia pisar-lhe afinal: era um gato não um velho homem.

Um velho já bem decrépito estava à espera da sua vez, da hora em que haveria de entrar no transporte que o levaria de volta à sua terra, tão precisa hora em que o gato chamou-lhe a atenção. Foi fatal para a existência persistir em meio ao caos de indigentes ali: ele era um gato mas o velho era humano e o levou para uma cidade bem distante dali.

Um lugar

Fui a primeira a entrar no ônibus, não porque desejava o primeiro lugar mas porque a ansiedade me tomava e precisava descansar.

Quero um sentido e não, não estão certas as coisas aqui.

Não me orgulho do que sou hoje, nem poderia pois sei que posso mais.

Estou acolá e construindo meu espaço mas ainda não sei a medida. Não tenho tempo a perder e tenho todo tempo do mundo. Preciso descansar, já não há mais nada a se pensar.

Quero as ações, mas elas fogem de mim.

Estou inerte, sem ler, sem ouvir, apenas vejo e me assusto porque nem lágrimas nem prantos, nem risos nem desesperos, nada.

Já não há mais o que fazer para afastar essa indiferença que quer me consumir.

Unheimliche

Queria falar para.

Dizer da minha dor, talvez essa angústia que me consome ousasse me abandonar.

Mas não posso, na verdade não consigo. Sinto por mim, sempre acho que está perto o meu fim. Penso que ou eu a sucumbo ou serei sucumbido por.

Se angústia tivesse cor, a minha seria escarlate sobretudo porque é vida e vida é sangue e alma e existência e, a minha, a minha não tem feito o menor sentido aqui.

Que se salve quem puder ser!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Álbum de festas

Vejo fotografias, nela encontro crianças sorrindo e uma delas revela a ausência dos pequenos incisivos de leite; essa sou eu. Nas festas de aniversário o que eu mais gostava na hora dos parabéns era quando o aniversariante tradicionalmente tinha porque tinha que enfiar o dedo no bolo! Hahaha. E como tudo aquilo me divertia!

Também gostava de dançar, me requebrava por inteiro e magricela que sempre fui, parecia um esqueleto dançante. Lembro-me que ficava feliz ao menor resquício de aniversário, achava a data mais importante...fosse de quem fosse a festa, isso antes! Antes das alergias se intensificarem e acabarem com minha vontade sedenta por festas.

Os finais de semana repletos de opções se tornaram tristes toda vez que me lembrava das minhas novas impossibilidades, das reações sempre assustadoras das quais temia cada dia com mais pânico.

Um pedaço de torta de morango podia se mostrar tão repulsivo como uma ida ao hospital com direito a muitas agulhas. Balões de festa se misturavam com balões de oxigênio que me faziam pensar duas vezes antes; difícil foi aquela época.

Mas dos preparativos eu podia participar e lembro como eram recheados de ansiedade e alegria! Com quantos primos eu iria brincar num só dia? Quantas amigas viriam a minha casa!

E depois?

Depois viria o cansaço todo, a saudade na hora da despedida e de novo eu solitária com minhas bonecas. Voltava para o apartamento, para minhas cabanas de lençol montadas na janela do meu quarto, para os meus diálogos mentais tão incompreensíveis, para os meus choros em seguida e para um mundo tão inexplicável para mim, logo eu que sempre achei tudo um grande aniversário...aí paro, vejo as fotos e me vem à tona a felicidade dos dias em que a minha vida foi um álbum de festas, e que álbum!


domingo, 11 de julho de 2010

Sem riso


Ele nunca teve um lar, como pode ter sido abandonado?
Esquecido por alguém?
Não, ele nunca foi registrado pra poder ser esquecido.

Quem é ele?

Nem ele mesmo sabe, porque já desistiu de pensar...hoje ele se embebeda no cheiro enauseante da cola de sapateiro enquanto você come, dorme, trabalha e ainda reclama quando não lembram de você.

Algum dia você já parou pra pensar se fosse um menino como esse? Relegado socialmente em todos os aspectos possíveis...?

Consegue sentir um pouco o marasmo em que ele está imerso e ainda xingá-lo de ladrão, e despejar em cima do governo uma responsabilidade que também é sua?

Se eu consegui promover uma reflexão válida, então realizei o meu intento.