Aqui já usei quase todo o meu repertório masoquista e desfiz boa parte das minhas ideias comunistas. Esse espaço é meu, mas desejei compartilhá-lo com o mundo, se você faz parte dele...Então seja muito bem vindo(a)!

sábado, 20 de novembro de 2010

Agora


Agora, foi agora que percebi que não podia continuar abandonada assim.
Hoje, ontem.
Ágora entre eu e as multidões de mim.
Agora entre o que escolhi e o que desejo seguir.
Passei, passado. Não quero mais me atrever a olhar para o abismo que atravessei e encontrá-lo chorando de saudade aqui.
Minha memória não morreu ali com todas as coisas que deixei, minha memória está viva, meu coração ainda pulsa e eu quero o presente que optei sim.
Quero a serenidade das grandes mentes, não a solidão dos grandes mestres.
Preciso sentir-me presente na realidade de hoje, de agora, na ágora das multidões de mim.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ponto

Gosto de ver o mundo pela cortina dos meus cabelos assanhados, de sentar embaixo da sombra de uma grande árvore e de deixar passar as horas assim sem medo.
Sem medo de me sentir inútil depois, sem culpa por achar que o andar dos ponteiros tornou improdutivo o meu dia;
Sem me comprovar a ideia tola de que as poucas horas entregue aos pequenos prazeres da vida, são desperdícios de minha limitada existência aqui.
Não sei o que deu em mim, alguma coisa alguma coisa de estranho parou e ponto.
Alguma coisa que me tirou o sabor da vida. Já nem sei mais pensar, já nem sei nem sei se tive saber. É como se tudo fosse um zero, um enorme e insignificante zero à esquerda de mim.


Alguma coisa grave me fez ficar assim nesse hoje de ontem.
Tenho tanto, tanta...sei lá o quê!
Raiva? Nem sei.
Alguma coisa que nem sei me deixou assim, quase homem, quase imóvel, quase fóssil.
Quero o querer de volta, o meu mergulho diário em mim quero de volta.Minhas profundezas quero de volta, sim sim o meu pertencer quero de volta: quero viver!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Do pombo

O telefone toca, estou sentada. Sinto-me por deveras cansada, cansada de viver, viver também cansa. As horas passaram rapidamente até agora, agora que começo a escrever. Mastigo os segundos lentamente como quem deseja muito ver a vida. E vejo.

Sentada me recordo da minha chegada aqui. Foi por minhas próprias pernas que consegui, e foi também por mim que caminhei lentamente até aí, foi por caminhar assim que fui tomada por uma visão difícil de se apreender e digerir. Justa hora absurda eu vi, vi um pombo, um transeunte e os meus dois olhos percorrendo o entorno de tudo ali. O animal ferido em frente a uma casa lotérica com pessoas de todos os tipos e caras que nunca conheci.

O que enxerguei mesmo foi um pombo e um homem. Um homem que me compreendeu o olhar e um pombo que estava ferido e lançado a própria sorte diante dos homens, diante da vida.

O pombo estava deitado, relutante por alguma coisa que eu desconhecia, o homem o olhava e como eu compreendia: Eu- o pombo- a vida, ambos cansados de viver, mas sem querer nos render à morte aqui.

O homem?

Era um estranho que me explicou o motivo de seu olhar, disse que não gostava de ver bicho sofrer.

O pombo?

Um animal que tragicamente foi atingido por um ônibus. Sorte a dele, já que eu fui atingida fatalmente por ver a face da miséria, por ter a consciência que a vida às vezes dá, dá do mesmo modo..: rápida e gratuitamente.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Do por que escrevo aqui

“Onde eu me encontro comigo mesma”.

Que profunda declaração recebi ao me perguntar inusitadamente por que precisava manter este blog.

Além deste encontro tão preciso, é nele também que expresso minhas vivências diárias, minhas dores, meus rancores, minhas lutas travadas intempestivamente com a realidade que me cerca. Há por isso quem me critique, me rejeite, me inveje.

Há também quem me ame silenciosamente em gestos, quem me admire com uma nobreza que tenho medo. Sim, medo de por isso mostrar que sou fragilidade, sou sensibilidade. Assim, tenho medo de me revelar por inteiro já que o mistério todo é necessário e acho que perdi, ou nunca tive... não sei, não sei a isso responder.

E me fitar nesse encontro semanalmente, no indizível das palavras malditas e mal escritas aqui, me ajuda a recolher as minhas dores para retalhá-las num texto pequeno de uma hora amarga. Mas também escrevo para minha alegria, para rir docemente das lembranças, e das idiotices indispensáveis à vida.

Escrevo para me falar que eu digo, sim e tenho dito. Não me importam as adaptações, não me importam. Importa o que está implícito nestas silenciosas linhas, nestes pequenos traçados da memória, nestas marcas aqui deixadas.

Se me criticas, então faças melhor, penses melhor, sintas melhor. Não to direi para ser melhor porque isso de fato é impossível. Porque numa coisa somos iguais, e sabemos disso. Iguais na condição humana, mas diferentes na sensibilidade de avaliar a dor de Ser num mundo absurdamente injusto.

Você não sabe o que a injustiça causa no homem, nunca sentiu a injustiça ferir-lhe o coração pois se assim o fosse não seria injusto. Você nunca sofreu por injusta causa; já eu desde cedo por perceber que tudo podia ser diferente se as pessoas agissem honestamente... Então poupe-me de críticas desajustadas da sua deturpada visão de mundo. Poupe-me de comparações alucinadas, de projeções fantasiadas em sua maneira de viver.

Quero apenas ser quem sou e posso, aliás... Como vês eu sou. Sou, sinto e me encontro comigo aqui e não é você quem vai destruir o que quero fazer de mim e se o que escrevo é de fato bom ou ruim.

Vai um conselho: seja você e me deixe ser eu assim!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Da miséria estudantil

Acordei com o cachorro da miséria lambendo-me a cara velha. Num súbito despertar de quem se assusta com algo, dei-lhe um murro. Não quis feri-lo, mas enquanto durmo já é de se esperar reações por puro impulso instintivo. A vela que estava acesa apagou-se e a escuridão tomou conta do quarto. O impulso que me moveu ali só urge em momentos em que estou dormindo, nos demais pareço homem.

Gostaria de ser somente animal, desprovido de consciência, assim o instinto faria parte de mim em todos os momentos. Desse modo eu poderia esmurrar qualquer idiota que me assustasse no caminho. Para fins didáticos esmurraria os últimos personagens da semana, que me surpreenderam (ainda me iludo por milésimos de segundo tentando negar minha intuição) com um comportamento de merda, completamente adequado a mediocridade local. Tal fato não contribui para que eu perca as nobres esperanças que carrego de um dia mandar todos os imbecis, sem nenhuma exceção, dar um passeio num lugar de onde possivelmente devem ter saído e do qual nunca deveriam ter se ausentado.

Irritada como fiquei nem pude racionalizar direito, nem consegui pensar noutra coisa que não fosse essa tal realização dita acima. Um desejo insano de matar cresce a cada dia, infelizmente existe em mim um SUPEREGO que não fomenta tais aspirações para o então fim último dos meus habilidosos pensamentos de morte.

O cachorro da miséria que me fez acordar num sopapo, foi o mesmo que me fez ir dormir profundamente. O cachorro da delinqüência, o cachorro da imbecilidade humana, aquele que nos permite ir além do que nós mesmos achamos que podemos ir, esse cachorro é o que me desperta nos dias de fúria, mas que eu adoraria que estivesse comigo sempre.