Aqui já usei quase todo o meu repertório masoquista e desfiz boa parte das minhas ideias comunistas. Esse espaço é meu, mas desejei compartilhá-lo com o mundo, se você faz parte dele...Então seja muito bem vindo(a)!

sábado, 15 de outubro de 2011

Rosa


Fui obrigada a repensar toda minha vida em segundos. Por quê?!
Porque abruptamente perdi e as perdas são sempre dolorosas demais a mim.
Precisava de mais tempo para repensar tudo assim, para aceitar a realidade enfim. Mas a fugacidade da vida me induziu sem escolha, não deu para resistir. É que na dor ou na presença do medo não me restou muita coisa, a não ser deixar as lágrimas expressarem meu descontentamento, minha decepção.

Esperava mais da vida, eu que recentemente fui levada a crer que precisava viver.
Viver pelas escolhas que fiz e não pelas que sofregamente resisti.

E já faz quase dois meses da iminente sempre presente, perda, e eu penso se fui honestamente fiel ao que deixei por mim...aí olho para trás e vejo tanta inautenticidade que dói sentir, sentir o significado das coisas que por medo nunca aceitei o fim.

Eu preciso seguir em frente, mas alguma coisa me chama para olhar se ainda há água no poço. É que parece que o passado não quer me deixar sentir o presente bem e a contragosto dele, eu tenho urgência.

Sei que não posso mais ir adiante sem aceitar as implicações do aí, daquilo-que-é, da minha vida-no-mundo e do que fica: a saudade doída de uma pessoa querida que in-felizmente descansou.

Eu poderia ter sido mais forte, mas hoje isso é tudo que sou.
Você deixou marcas tia Rosa e eu sempre vou sentir sua falta.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A-braço


Deu saudade...
Saudade de me sentir largada nos meus pensamentos precisos, do meu tempo recolhido.
Não que eu queira voltar, me entenda...sinto saudades apenas de lá!
É que nesse tempo eu só tinha a mim para escutar.

O mal costume foi de me refugiar no res cogitans, como se assim eu pudesse escapar, escapar do medo, do enorme medo de viver, porque eu sempre achei que deveria saber... ninguém nunca me disse que isso não se sabe, que não se aprende, que não se precisa saber.

Sorte a minha, por ter que descobrir isso sozinha.
E a maior sorte é que tive mesmo muita, muita sorte.
Porque minha solidão pude suportar, sem a mim mesma negar.
Mergulhei bem fundo aqui, quase me afoguei na imensidão de mim.
E foi angustiante...de uma angústia sem fim. Eu que sempre me achei tão...? tão pequena, me ver numa condição desmedida, com palavras sendo tolhidas nas reticências de mim. Que contradição! Eu com um gigantismo e um coração bem vívidos aqui.

De repente em mim cresceram braços que me fizeram acolher a pessoa que também vos escreve e vos diz: não é preciso saber viver! E quando finalmente me desvencilhei desse abraço torto e apertado, pude sentir...o vazio, aquele que a vida claramente traz, e temi.

Mas antes de voltar atrás, de me ver de novo incapaz, agarrei! a vida para um passeio, e conversei, por longas horas teimei, até me dar conta de que não tinha sido isso o que eu desajeitadamente sonhei.

Não pude mais fugir, eu e a vida viramos amigas enfim. Só que há sempre uma desavença, vez por hora perco a paciência. Não fui ensinada a suportar muita dor, não sei esconder de mim mesma o evidente, não nego o que vejo aparente.

E sinceramente discordo que é preciso saber viver!
Quem disse isso nunca percebeu que sofrer é inerente e não causa.
Sofrer é parte intrínseca, inseparável da nossa condição.
É ontológico...é nossa única possibilidade para existir, para ser-aí-neste-mundo, agora se existe outro me avisem...porque esse eu ainda não sei!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Manual



É difícil se ver, sobretudo quando o tempo é curto e há sempre mil coisas a se fazer.

Mas é muito mais difícil suportar as horas sem se deixar entregue ao tédio, ao ócio, a insônia e a todas as reflexões daí decorrentes. É que me acostumei comigo mesma, com a minha solidão necessariamente forçada, com os meus pensamentos, meus confrontos, meus desafios diários de me olhar cara a cara, e me ver para um diálogo dolorido, mas franco.

Porque francamente me conheço além do que gostaria. E por mais que se conhecer tenha lá suas boas implicações, também tem as ruins. É que me irrita ter medo de mim e saber dos horrores que me habitam, das fragilidades e das histórias que são apenas minhas e que hora ou outra me assolam e ameaçam arruinar tudo, tudo-de-novo.

A sombra que me permiti estar por tanto tempo, me faz lembrar o que deixei à toa.
À toa de mim, à toa pela boba que sempre escondi... Meu Deus quantas vezes planejei uma saída, uma mentira, uma inexplicável e absurda mentira?

A ansiedade me causa tormento pela realidade ser a quase todo momento digerida, va-ga-ro-sa-men-te, por minha incapacidade de não refletir. É que é uma doença que adquiri desde pouca idade e que me lembro bem das respostas que de ninguém obtive e que sozinha tive de descobrir.

E não sei se foi a melhor coisa que pude concluir, mas enfim... Hoje penso que ou você cria seu próprio manual de instruções para ser-no-mundo aqui ou o manual deste mundo cria você deturpado por fim.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011



Há tempos atrás tudo hoje parecia impossível. Jamais pensei que chegaria aonde cheguei, que caminharia por onde sofregamente me encontrei. Mas a solidão do tempo se encarregou de me ajudar nas perdas, nas incontáveis perdas. Difícil era imaginá-las, muito pior foi ter que aceitar elaborá-las.

Quando o passo é lento a impressão é que o caminho é imenso, foi o que aprendi até aqui. Quando a dor é grande, o remédio nem sempre é o tempo, os dias e as horas podem até virar tormento. Mas pessoas podem trazer alento e eu incredulamente consigo visualizar esse crescimento.

Foram degraus absurdamente altos para subir, foram noites de lágrimas, de insônia, de desesperos que pareciam nunca ter fim. Só que eu cheguei, finalmente cheguei no antepenúltimo...e pensei repentinamente na altura que me vejo, uma altura antes não desfrutada pela impossibilidade de enxergar-me sem a mácula que costumeiramente aceitei dos outros.

Mas agora eu posso ver o tamanho do rasgão do vestido sem que para isso eu me sinta nua, despida das esperanças que havia quase abandonado. Já me vejo com a beleza necessária de uma criança que aprendeu a andar. Ando com pressa porque tenho ânsia e medo, medo de tudo rapidamente evaporar. Porque quem já perdeu sabe com o que teve que lidar. E quem muito recebeu jamais saberá se acostumar com pouco, quem amou não se contentará com o ódio, quem foi amado não se satisfará com o gostar e quem teve amigos jamais se adaptará a relações por interesse.

Estou aqui porque era isso o que eu tinha que descobrir por mim, sozinha e sem muletas eu sei que perseverei até o quase fim. Porque eu não errei quando intuitivamente acreditei que era este o curso que eu tinha que seguir, e eu estou feliz pelos que me acompanharam até aqui, pelos que nos bastidores esperavam minhas melhoras de mim.

Ao Deus que me deu mais do que esperei, minha eterna gratidão. Aos que me infligiram dor, me invejaram, me excluíram e subestimaram, obrigada! Porque eu sei que o sofrimento não foi nem será vão, na prática que escolhi não. Porque eu acreditei nas confortantes palavras de uma pessoa que me ajudou e tem me ajudado nesse encontro com o fim. O fim de um ciclo e o início de outro.

A vocês o meu muito obrigada! 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Ao amor




Esse mês faz um ano. Um ano que resolvi tomar as rédeas da vida, e demorei porque sabia...Grandes dificuldades eu teria! É que estava implícito, eu renunciaria a inautencidade que me sustentou por três longos e dolorosos anos aqui.

Eu precisava me amar, não é que seja tão difícil...é que eu não compreendia como a pessoa que sou se transformou na pessoa que hoje é. Não queria tolerar e respeitar o que precisei me tornar para sofregamente suportar. A realidade de tudo na minha vida mudou e eu precisava acompanhar. Não poderia substituir aquilo que naturalmente sou, ninguém pode, mas inutilmente tentei.

Tentei porque fui amplamente criticada, duramente excluída, fatalmente julgada.
Tentei porque a dor era maior do que a ausência, do que estar só num mundo desconhecido. A dor era por me fazer lembrar coisas piores que eu tive que passar.

Já não havia mais o meu mundo de lá, não podia então confiar.
E intolerância por tolerância hoje eu tive que trocar.

Porque para amar é preciso renunciar, porque amar é uma escolha e eu escolhi não mais me maltratar. Eu necessitei do meu carinho e agora estou pronta para finalmente me olhar.

Fundo, olho no olho. E ver neles luz, esperança, salvação.
Não mais olhar para trás, para a vida que deixei.

Eu quero recomeçar em mim e depois retomar os vínculos das pessoas que nunca quis magoar, mas magoei. Porque me abandonando abandonei todos que amei, todos que um dia falei: não vou te deixar. Eu desprovida de afetos por mim mesma, me deixei. Largada por rejeitar aquela que absurdamente me tornei.

E hoje me admiro porque do outro lado provei e reconhecendo as potencialidades humanamente minhas, desafiei.  A vida para um duelo, que sei...Surpreendentemente sei que sou mais forte do que um dia pensei.

Por isso, hoje, agora e sempre me respeitarei.